Quando, após o derrube por via militar do anterior regime, foi possível o fim de um conflito colonial em várias frentes e com mais de dez anos, a que se seguiu um processo revolucionário que desarticulou a já de si frágil estrutura económica continental, alguns lideres políticos portugueses perceberam que a “adesão à Europa” era a melhor garantia para a consolidação da democracia parlamentar. Sobre isso é justo referir Mário Soares, Sá Carneiro e Lucas Pires. E se os acordos EFTA haviam dado um impulso à economia portuguesa na década de sessenta – traduzido por um crescimento de mais de 50% nas exportações – a adesão à CEE que se pretendia nos anos 80, iria potenciar ainda mais a economia nacional, agora amputada do mercado ultramarino. Esse desenvolvimento passava por novas infra-estruturas (como as comunicações), uma nova economia, novas condições para as formações escolar e profissional e ainda a melhoria das várias vertentes da assistência social à população. Caminhar para a integração europeia significaria, em última análise, melhorar as condições de vida internas e criar novas oportunidades aos portugueses. Na época do alargamento a Portugal e Espanha – meados dos anos 80 – a Alemanha estava dividida (falava-se em Europa Ocidental, a quem os EUA garantiam protecção militar face à “ameaça soviética”), a França era o país-chave que sempre foi e Inglaterra, tal como hoje, dividia-se entre essa Europa e o seu aliado americano. A este núcleo interessava uma Comunidade socialmente coesa e de progresso económico. Este é o período de transferência de recursos e do grande investimento estrangeiro em Portugal (como a Volkswagen). Paralelamente, actividades nacionais consideradas pouco competitivas eram subsidiadas com vista ao seu encerramento ou reconversão. Não se tendo erguido novos conglomerados nacionais a não ser no sector da distribuição e comunicações, o consumo privado de bens importados passou a ser um pilar da economia portuguesa. O crescimento cingiu-se a sectores protegidos como a construção e a energia, hoje, paradoxalmente, um factor de constrangimento ao desenvolvimento. Nos anos 90, dois factos alteram a “geografia” da Europa: a unificação alemã, após a queda do “muro de Berlim”, a que se segue o alargamento da EU a leste (Polónia, Republica Checa e outros). A unificação obrigou a um esforço maciço do investimento alemão no sector oriental (o que originou o não cumprimento sucessivo da regra do equilíbrio orçamental, como agora se exige a Portugal) e, com os novos membros, “recriou” a sua área de influência, dita prussiana e velha de séculos. Irredutível na defesa do seu tecido industrial (Barroso foi mandado “esquecer” as novas metas ambientais quando Merkel percebeu que afectavam o seu sector automóvel), construiu um bloco económico com produção de elevado valor acrescentado. E enquanto exportava máquinas sofisticadas e sistemas de controlo, Portugal e outros países do sul vendiam lençóis como produto e refeições como serviço. Este inevitável desequilíbrio, a que se juntou o apagamento da França da política internacional, deixou a Alemanha livre de qualquer explicação aos parceiros europeus, logo, centrada nos seus interesses e estratega única da Europa que agora lhe interessa. Este quadro, a que se junta a chegada da China ao comércio global com produtos de baixo preço, tornou Portugal (e talvez Espanha) um país dispensável nesta nova Europa. Com o emprego à beira do abismo, sem capacidade de produzir bens que compensem as importações (daí o endividamento), sem capacidade de controlar a moeda, logo os fluxos de importação e exportação, sem meios financeiros próprios para investimento e sem atractividade para o investimento estrangeiro (agora centrado nos países emergentes), valerá a pena manter a situação actual? Alguns parece pensarem que a saída para o problema é uma questão de (mais) empobrecimento e de fé. Avisados estarão os que pensarem em alternativas.
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