Li esta semana no Expresso que passou a ser criminalizada, em França, a negação do extermínio dos arménios pelos turcos na sequencia da Primeira Guerra Mundial, tal como já é, em todo o mundo civilizado, a da negação do exterminio dos judeus pelos nazis na Segunda. Os turcos entretanto já reagiram, também porque isso porá em causa Ataturk (pai dos turcos) e os “jovens revolucionários” que são heróis na actual história oficial turca. E isto fez-me lembrar a história do meu maior incidente diplomático. Até agora. Em 1987, inventámos no Fatias de Cá o projecto de, com base na “Peregrinação” do Fernão Mendes Pinto, contar histórias passadas entre portugueses e outros povos do mundo, mostrando os dois lados da história. Em 1997 foi concretizado “Tanegashima”, que conta a história da chegada da espingarda portuguesa ao Japão, no Tejo, com o teatro a decorrer simultaneamente em Tancos e Arripiado (já agora fique-se a saber que o espectáculo vai ser reposto em Agosto próximo no mesmo local) e que contava com os nossos parceiros japoneses do Takebue e estávamos a preparar com outros dois parceiros, um grupo chinês de Macau e uma federação de teatro da Turquia, outros dois espectáculos, no âmbito da Expo’98. Com os chineses ainda havia boas histórias passadas com os portugueses, agora, com os turcos é que era pior, só tínhamos em comum com eles termos andado à porrada: quando chegámos ao Indico, na primeira metade do séc XVI, fomos nós que demos; na segunda metade, fomos nós que levámos. Bem, lá fomos à Embaixada da Turquia em Lisboa para discutir o assunto, o senhor embaixador foi muito simpático, achou muito bem o projecto, fazer teatro em parceria luso-turca era boa propaganda para o esforço que a Turquia fazia para entrar na comunidade europeia, a dúvida era que história se havia de contar, estávamos nisto quando eu puxo do meu trunfo: o Corto Maltese tem uma aventura na Turquia, “A casa dourada de Samarkand”, e poderia contar-se a história na perspectiva do relacionamento do Médio Oriente com o “Médio Ocidente”. E mostro o livro de banda desenhada que tinha levado. O senhor embaixador abre o livro, dá uma vista de olhos, empalidece e manda chamar o adido cultural da embaixada que, como se poderá imaginar, costuma ser o nome pomposo que se dá ao senhor dos serviços de informação, vulgo espião. O adido entra, sem avental claro, e começa a fazer uma espécie de interrogatório assim para saber do nosso posicionamento politico. Eu disse cá para mim, “olha para onde tu vens…” e lá fui defendendo a ideia de que seria culturalmente relevante fazer o Corto Maltese. Finalmente, quando acusaram o autor Hugo Pratt de, com aquela banda desenhada, ofender a história oficial da Turquia é que eu percebi que tinha feito merda: a aventura do Corto conta a história do extermínio dos arménios pelos turcos. Bom, para sair do imbróglio, lá confessei que não sabia nada da história oficial da Turquia e que não tinha intenção de ofender nem as instituições nem o governo turco com o Corto Maltese e a coisa lá ficou por ali. Depois, ainda fomos à Turquia, mas o projecto acabou por abortar, também porque a comunidade europeia anunciou oficialmente que a putativa entrada da Turquia teria de ser adiada. Ah, já agora: o Corto Maltese que o Fatias de Cá está a fazer aos domingos, às 15h15, no Convento de Cristo, passa-se na Irlanda e o “lanche” é ovos escalfados com ervilhas e bacon.
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