Sou de uma geração de temperança e de sacrifício. A geração dos anos trinta do século passado, foi a que suportou as consequências do descalabro da primeira república, os apertos da segunda e que ainda aguenta os desmandos da terceira. Entre 1910 e 1926 Portugal viveu todos os desvarios da desordem social, das insurreições permanentes, das greves contínuas, dos tumultos constantes, da instabilidade governativa, da intolerância religiosa. Levianamente, o país envolveu-se na guerra mundial de 1914-1918. Milhares de mortos, de estropiados e de gaseados a vaguear pelas ruas em errante mendicidade Dívida de guerra à Grã-Bretanha que Afonso Costa prometeu pagar em dois anos após o armistício, mas que em 1926 ainda estava por solver na totalidade. O Estado Novo a herdar uma situação calamitosa de endividamento, de défice crónico, de desequilíbrio orçamental e de descrédito internacional com sucessivos empréstimos pedidos, mas recusados e tudo isto agravado com a ocorrência das crises financeiras mundiais de 1928 a 1932. Carmona eleito Presidente da República, Salazar provido nas finanças primeiro, na chefia do governo depois. Constituição Política de 1933. Abolição de todos os partidos políticos, implantação do regime corporativo, autoridade reforçada, restrição das liberdades politicas de comunicação e de expressão, polícia de vigilância do Estado, censura, austeridade e poupança. Limitação de importações de todos os bens sumptuários e muitos necessários. Incentivos à agricultura e às pescas, incremento da produção, da mineração e da exportação. Palavras de ordem: “ Produzir e Poupar”. Nas famílias, aproveitavam-se para o dia seguinte os restos das refeições da véspera; era a “roupa velha” feita das sobras com migas. Os filhos vestiam as roupas dos pais viradas, adaptadas e tingidas. O calçado perpetuava-se com meias solas dotadas de protectores, reposição de gáspeas e contrafortes. Saindo de um quarto ou sala, apagava-se a luz. Assentavam-se as despesas correntes, faziam-se contas ao dinheiro do mês, limitavam-se os gastos aos ganhos, alinhavam-se necessidades e possibilidades. Com a guerra de Espanha de 1936-1939, vieram acrescidas preocupações e restrições. Na segunda guerra mundial de 1939-1945, Portugal definiu estatuto de neutralidade colaborante, fiel à aliança luso-britânica. Hitler recebeu formal garantia ibérica dessa neutralidade e isso assente, os nazis já prontos para ultrapassarem os Pirinéus, retrocederam para leste. Fruindo os benefícios da paz, a salvo de encargos e de pavores, logo em 1940, Portugal celebra, com pompa e circunstância, o duplo centenário da nacionalidade: o oitavo da fundação – (1140-1940), o terceiro da Restauração – (1640-1940). Os fugitivos do conflito encontram refúgio e acolhimento no oásis lusitano. Com as finanças equilibradas, os orçamentos já superavitários, as dívidas pagas, o crédito internacional restabelecido, na temperança de um remedeio honrado que se manteve, o país comprou e pagou a pronto, valorizou a moeda colocando o escudo, a par do dólar e da libra esterlina entre as mais fortes divisas do comércio internacional e encheu de lingotes de ouro e de moeda forte as reservas do Banco de Portugal. Tempos em que os vizinhos espanhóis calçavam alpergatas, subsistiam pobremente e olhavam com indisfarçada cupidez as notas verdes de 20 escudos com a efígie de Santo António e o escudo se cambiava por três pesetas. Enfim, chegou a terceira República e com ela o desvairado mundo novo do crédito fácil, dos empréstimos ao virar da esquina, do tudo a todos, da dissipação frenética, dos subsídios a fundo perdido. Renasceram, multiplicaram-se, crismaram-se, separaram-se e reagruparam-se os partidos políticos. Surgiu uma nova classe profissional a saltitar de partido em partido, das organizações para as funções, dos parlamentos para as administrações, do anonimato para as pastas ministeriais. Uma nova Constituição, em 1976 passou a garantir direitos expressos e obrigações omissas. As famílias ganharam putos tiranos, gastadores, exigentes e malcriados. As escolas perderam o rigor das frequências e dos exames, oferecendo facilidades para colmatar desistências. Multiplicaram-se os cursos superiores e as licenciaturas acessíveis e inúteis. Os diplomados, salvas honrosas excepções, juntaram a ignorância à impreparação académica e profissional. O dinheiro correu a jorros, com vaga e despreocupada referência a quadros de apoio disto e daquilo culminando no endividamento do estado, das autarquias, das empresas, das famílias e das pessoas. Criou-se um país artificial com condomínios fechados, luxos e modas, carrões de grandes estilos e altas cilindradas, auto estradas e estádios da bola, marcas e etiquetas, vida fácil diurna e nocturna. O país desintegrou-se social, moral, ética e até legalmente, com a classe política especializada na arte de ganhar eleições, o que não significa arte de saber governar e a população envolvida nos meandros da arte de ganhar o mais possível com o mínimo de esforço, no corrupio dos artifícios que enformados no novo-riquismo dominante, justificam, uma vez mais, a máxima própria dos tempos corruptos, de que “não custa viver, mas sim saber viver”. Foi o tempo feliz e ilusoriamente próspero dos “ismos”: soarismo, eanismo, guterrismo, cavaquismo, socratismo … até à queda vertiginosa para o fundo do sinistro e profundo buraco em que nos encontramos agora. À minha geração, de há muito curtida na auto disciplina e no sofrimento, daí cauta e prudente, não falta coragem para o que já temos e para o que nos espera. Temos fibra bastante. Não participámos nas orgias do esbanjamento; não mendigámos prebendas; não recebemos sinecuras; não tivemos almoços grátis; não assaltámos o poder, não estendemos a mão; não intrigámos, não conspirámos, não enriquecemos furtivamente. Na dura aprendizagem política e social em que, da juventude chegámos à maioridade, adquirimos, com estudo e com sacrifício, os conhecimentos necessários ao estatuto pretendido; cumprimos serviço militar obrigatório, estivemos no ultramar, lutámos sem tréguas e sem exigir lugar à mesa do orçamento, sem horas extraordinárias, sem fins de semana e durante anos sem férias, no sacrifício do presente a benefício do futuro com raras idas aos restaurantes e viagens ao estrangeiro como privilégio de uma vida inteira. E por tudo isto, a minha geração está habituada a sacrifícios, temperança de vida, austeridade e frugalidade. Nada disto é novo para a geração da primeira metade do século passado. O que é novo - e custa a sofrer – é que esta crise em que nos lançaram políticos tolos, de vistas curtas, prudência nula, ignorância crassa e inteligência minguada em contrapartida de ambição e de irresponsabilidade desmedidas, haja de ser resolvida com dinheiro estrangeiro, mendigado a prestamistas estrangeiros com programação, acompanhamento e fiscalização de estrangeiros a quem, ainda por cima, Portugal paga significativas comissões para os compensar do trabalho de nos orientarem, conduzirem e fiscalizarem. E tudo isto, a correr nas bocas do mundo, apregoado aos sete ventos, sob a férula palmatória dos comissários, o chicote dos mercados e a censura dos ratings. Sabem o significado de rating? Vejam no dicionário: classificação, repreensão. Fomos educados no princípio de que: “Quem não se sente, não é boa gente”. Mas o que custa e dói, à minha geração, para além da vergonha que o tempo e a canalha politiqueira nos reservaram, é constatar que La Fontaine errou. Nesta crise desgraçada, quem a paga, ao contrário da fábula, não são as cigarras tontas e estouvadas que queimaram o verão a cantar; pelo contrário, são as formigas, sérias e laboriosas, que trabalharam e amealharam no verão, para a sobrevivência do inverno. As cigarras, essas velhacas malucas e matreiras, andam por aí, desavergonhadas, inconsequentes, irresponsáveis, fartas, nédias e galhofeiras.
É vê-las!
Continuo a escrever como me ensinaram mestres cultos em tempos de escola digna.
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