Nos últimos anos, por causa da crise, muita gente cita este provérbio chinês: “Quando vires uma pessoa com fome não lhe dês um peixe, ensina-a a pescar”. Dar o peixe a quem tem fome é assistencialismo; ensinar a pescar é desenvolvimento humano e social. Recentemente, em Tomar, o Bispo de Santarém defendeu que as Misericórdias têm de seguir “as raízes e o espírito cristão, o amor fraterno, solidariedade e apoio para com os mais necessitados”. De acordo. Mas o espírito cristão não se limita ao assistencialismo, e procura que “os mais necessitados” o deixem de ser. Segundo documentos históricos, as Misericórdias devem adaptar-se constantemente “à vida social das épocas que se têm sucedido e aos diversos lugares, aproveitando os conhecimentos científicos e técnicos e reunindo à sua volta pessoas escolhidas, de ideologias múltiplas, mas tolerantes e justas, na obra de bem-fazer”. As Irmandades de então chamavam-se, além de Misericórdias, de Confrarias, porque tinham preocupações de desenvolvimento, hoje perdidas. Na encíclica “Caridade na Verdade”, de Bento XVI, no capítulo “O Desenvolvimento Humano do Nosso Tempo”, diz-se que já Paulo VI “com o termo “desenvolvimento” queria indicar, antes de mais nada, o objectivo de fazer sair os povos da fome, da miséria, das doenças endémicas e do analfabetismo”, em condições de igualdade. Este desenvolvimento não se consegue com o assistencialismo, que perpetua os necessitados e cria uma Feira de Vaidades entre os que se julgam não necessitados. Segundo a comunicação social, o Bispo de Santarém terá dito que dentro da “raiz e do espírito cristãos” das Santas Casas há que realizar os fins de “fazer o bem, ajudar os pobres e não se deixar levar pelo espírito de vaidade”. De acordo, fazer o bem não só aos pobres, o que é vaidade, mas a todos, porque o cristianismo procura fazer o bem a pobres ou a ricos, inclusive quando há cataclismos naturais, como os tornados: por onde andaram? A ideia de que as Santas Casas são só para os pobres tem impedido que muita gente se filie nelas, e tem impossibilitado o desenvolvimento das instituições e das comunidades onde se integram. As Misericórdias deviam ultrapassar o assistencialismo e preocupar-se com o desenvolvimento. Elas já criam empresas de inserção social; a inserção é desenvolvimento, não é assistencialismo, que exclui: então por que não actuam mais no campo do desenvolvimento? Como disse no acto de posse o novo presidente da Assembleia Geral da Misericórdia de Tomar, Dr. António Madureira, a longevidade das Misericórdias está relacionada “com a sua capacidade de adaptação aos novos desafios, sejam políticos, religiosos, culturais e sociais”. Há quantos anos eu defendo estas ideias? E porque não se adaptam? Foi a necessidade de adaptação aos tempos que levou a Igreja Católica a criar a sua Doutrina Social, onde se defende uma Economia Humana, com sonhos, com actualidade e planos para o futuro, e se desenvolve uma concepção de Economia Social. As Misericórdias, que fazem parte da Economia Social, o terceiro sector referido na Constituição da República Portuguesa, deviam ter sonhos, actualidade e planos para o futuro, mas a maioria não os tem porque vive do assistencialismo, com algumas a implorarem assistência para si próprias porque não têm com que pagar salários. Senhor Bispo, a actual crise não acontece por falta de valores; ela é planeada e orientada pelos valores do Anti-Cristo. Portugal vai ser destruído e vendido aos pedaços por esse Mundo fora. As Misericórdias, que há séculos acumulam um acervo simbólico e material, devem participar na defesa da dignidade e da identidade local e nacional. Isto consegue-se com desenvolvimento. Este não é apenas económico, também é social, humano, religioso, cultural, tecnológico, político e tudo o mais. O baixo nível de consciência portuguesa e dos seus pastores é indicador de fraco desenvolvimento e causa da crise. O processo de desenvolvimento é um imperativo, a Igreja e as Misericórdias devem dele fazer parte. Que Deus os ilumine.
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