Com toda a clareza o digo: na novela da transferência da Família Pingo Doce para a Holanda, o único pormenor que acho interessante e gostaria de ver esclarecido é o que essa família sabe, e nós ainda não sabemos, do que vai passar-se no país para a levar a retirar rapidamente para o estrangeiro. Ao resto, que inclui ética, falta de solidariedade com o país e discursos moralistas do chefe da família, não ligo peva. O Sr. Santos tem todo o direito a expressar as suas opiniões políticas, bem como o Sr Azevedo da outra mercearia, o operário corticeiro Amorim ou o Sr. Carmo dos fados, e eu sinto-me com todo o direito de não prestar atenção. Como eles teriam esse direito se os jornalistas andassem por aí a fazer discursos sobre o arroz carolino, a massa de tomate, a pureza da rolha ou a qualidade das guitarras. Por mim, tenho sempre presente a história que Aquilino Ribeiro conta num dos seus livros acerca dum merceeiro, durante a Guerra de 1914-1918,que prometeu ao santo da sua devoção uma vela da sua altura e largura se a guerra durasse mais dois anos. Parece que a isto se chama agora legítimo pragmatismo. Rende milhões sem estados de alma. Posto isto, vamos à Loja Mozart, esse alfobre de homens expeditos nos negócios e na polícia secreta que, por terem ido com demasiada pressa ao pote, puseram o país a berrar contra a Maçonaria. Algum dia havia de ser, pois ela, a Maçonaria, está de tenda montada em Portugal desde 1820 e sabe-se que sempre esteve na origem de acontecimentos políticos que são memória traumática do povo. Por exemplo, o assassinato do Rei D.Carlos e do Principe D.Luís Filipe, a Noite Sangrenta de 1921, a entrada de Portugal na 1ª Guerra Mundial com centenas de soldados portugueses mortos (sem ao menos uma bandeira do seu país para os acompanhar à sepultura, o que só veio a ser corrigido graças a um aristocrata exilado em Paris), a estúpida perseguição à Igreja Católica, a minagem social nas antigas colónias, etc.etc. Ora, como, desde 1974, tem sido um vê-se-te-avias de galopins da política e dos negócios a filiarem-se na maçonaria, foi impossível não reparar como a mediocridade subiu aos píncaros do tacho e da arrogância, ao mesmo tempo que o país tem vindo a degradar-se. Bem podem certos governantes proclamar que são maçons com ar ameaçador e ferrabrás, porque o povo não tem medo. Já percebeu que quem tem razões para medo são os maçons que andam a vender a pátria. Recordo, a propósito, um artigo de grande dureza de Francisco Sá Carneiro, no Jornal Novo, contra os que faziam a vida dura aos que não eram da Maçonaria nem iam às reuniões promovidas pela embaixatriz Carluci no sótão da Embaixada dos Estados Unidos. E chego sempre à mesma conclusão: há uma gentinha no PSD e no CDS que só subiu na política porque foram liquidados Sá Carneiro e Amaro da Costa. Com eles vivos, as coisas são seriam como estão a ser. Se aos dirigentes da Maçonaria sobra algum bom senso, tomem medidas para travar este sucídio nacional que é porem o povo contra as instituições do estado. Porque é o que tem feito esta nova vaga. O que, misturado com fome e desespero, dá estoiro. Passemos às nomeações para a EDP, Águas de Portugal, e por aí fora. Elas são o completo despudor,a completa desvergonha, de quem nomeou e de quem aceitou. E por isso, uma nota de apreço a Luís Amado, que soube dizer NÃO. Bem pode gabar-se de ser o Cristiano Ronaldo da Economia aquele político que,goste ou não, para sempre ficará ligado à zona capilar do baixo ventre: nem o riso merece, piedade muito menos. Recordo um economista que, apresentado a Lúcio Tomé Féteira, se entusiasmou a defender teorias várias perante o silêncio do velho capitão da indústria. Quando finalmente se calou, Tomé Féteira disse-lhe só este mimo: “O Sr. Dr. sabe qual é a maneira garantida de levar uma empresa à ruína? É entregar a administração a um economista”. Um país, em termos económicos e financeiros, é uma empresa gigantesca. O trabalho dos economistas está à vista, podem limpar as mãos à parede. Porque continua a ser verdade que a árvore se avalia pelos seus frutos.
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