Há dias recebi um cartoon a que achei imensa piada: dois rapagões de mão dada, de aventalzinho numa cozinha, um deles com um saco de fruta na mão diz para o pai que entrou: “Pai, tenho uma coisa a dizer-lhe… Sou gay e este é o Carlão, o meu namorado”. Ao que o pai responde: “Uff! Agora assustaste-me. Com esse avental e essas frutas pensei que ias dizer que és maçom e fazes compras no Pingo Doce”. E eu, que até gosto da maçonaria e do Pingo Doce — já não tanto da “paneleirice” expressa no cartoon —, fiquei cá a matutar neste desbroncar que tem sido feito nos jornais, com a maçonaria por causa dum senhor que passava informações e com o Pingo Doce por causa de ter mudado a sede para a Holanda, ambos, portanto, para ganharem mais, afinal o costume e o que se vê um pouco por todo o lado com o “se não é proibido não é ilegal”. Agora, se for ilegal e a organização souber, a organização, como diria o senhor de La Palice no seu melhor, tem de tomar uma de duas atitudes: ou deixa andar ou toma uma atitude. Deixem-me dar um exemplo que se passou há mais de vinte anos no Fatias de Cá. Eu fui dar aulas para Viana do Castelo e o Fatias de Cá ficou “entregue” a duas colegas, a Ana e a Ana Paula, que se encarregaram de encenar com dois grupos de trabalho diferentes “A Sapateira Prodigiosa” de Lorca e a “Carmen” de Mérimée/Bizet. As peças foram estreadas, ambas as encenações eram bastante boas, o grupo de trabalho da “Carmen” era o habitual mas o de “A Sapateira Prodigiosa” tinha sido aberto a novas colaborações, nomeadamente professores e alunos do Instituto Politécnico e fez carreira numa espécie de café-teatro que tínhamos alugado ali para os lados da estação da CP, aos sábados. Eu ia aparecendo nos dias de espectáculo e, alguns dos seus participantes, não me conheciam como tão intimamente ligado ao grupo, pelo que eu era tido assim como uma espécie de espectador assíduo. E então comecei a suspeitar que havia gente de extrema-direita — a que defende a ideologia fascista e que, por isso, é ilegal — infiltrada. Fui ter com a Ana e falei-lhe das minhas suspeitas ao que ela me respondeu “Tu também vês conspirações em todo o lado”. Fomos andando e, passado uns tempos, um rapaz de raça negra foi assassinado no Bairro Alto, em Lisboa, ao que se dizia, por “skinheads”. O assunto da extrema-direita é desbroncado pelos media e, num debate na televisão aparece um dos tais rapazes que andava no Fatias de Cá a defender os “skinheads”. É claro que, quando voltei a estar com a Ana, não foi preciso muitas conversas para ela compreender que tinha sido “papada”. Resultado: “A Sapateira Prodigiosa” não voltou a ser feita, aquele grupo de trabalho foi sendo desactivado, a coisa passou discretamente, logo a seguir em 1992 tivemos (nós e a Rainha de Inglaterra) um “annus horribilis”, fomos andando e cá andamos. E agora pergunto eu: alguém se atreve a dizer que o Fatias de Cá pactua com o fascismo?
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