Em tempos remotos, quando menino e moço, Santa Iria tinha para mim um significado que dominava todos os outros: era o tempo da feira. A animação era visível e a Várzea Grande transformava-se num espaço que nós, os de tenros anos, não tínhamos pejo de comparar aos grandes Luna Park que víamos no cinema. Carrosséis, pistas de carrinhos, o Poço da Morte, barracas de tiro, onde espreitavam às vezes umas pequenas pintadas e vestidas de maneira a que não estávamos habituados… E o circo, acima de tudo. No espaço onde está há muito a central de camionagem, ao pé da estação, erguia-se forçosamente em Outubro uma tenda gigante, dentro da qual nos deslumbrávamos com trapezistas, acrobatas, palhaços, animais amestrados… Com o avanço do tempo e do estudo, Santa Iria passou a constituir uma espécie de referência literária. O “Romanceiro”, as toadas dispersas e algumas narrativas em prosa falavam de uma personagem ao mesmo tempo ingénua e trágica, fiel a compromissos e vítima de uma tremenda conjugação de incompreensão e maldade. A santa, por um lado, e as personalidades complexas do frade Remígio e do cavaleiro Britaldo provocaram-me mesmo uma vontade súbita de os transformar em elementos de uma peça de teatro que eu escreveria. Já tinha título e tudo; tirado de um dos textos poéticos, um verso vinha a calhar: “Iria a fidalga, Iria a coitada”. Mas, passado o ardor dos 16-17 anos, época em que tudo parece possível, a peça teatral passou a ser um projecto eternamente adiado, por falta de tempo e, muito provavelmente, por me ter dado conta de que escrever para teatro não é a mesma coisa que redigir crónicas ou reportagens. E assim a Santa Iria nunca subiu ao palco pela minha mão. Afastado de Tomar, assumi quase como ponto de honra uma visita à capela da santinha sempre que me deslocasse a terras nabantinas. Procurava talvez vingar-me do tempo da meninice e juventude, durante o qual a capela permanecia hermeticamente fechada, só abrindo a custo no dia 20 de Outubro. Numa das visitas, acompanhado que vinha por gente perante quem queria fazer boa figura, arranjei maneira de levar no pequeno grupo o arquitecto Sebastião, recentemente falecido. Mostrou-me ele coisas que eu nunca tinha visto, apesar de visitante de há muito. Passei depois ao estado de lamentação e as causas não faltavam: ver o convento a cair, verificar que na liturgia a santinha está mais ou menos ausente, tomar consciência de que hoje já ninguém lê o “Romanceiro” nem as toadas poéticas. A fase actual – e que já dura há uns anos – traduz-se numa prática que tem pouco de espiritual, embora sirva para confraternizações e manifestações de amizade. Santa Iria que me perdoe, mas a sua festa de Outubro transformou-se para mim num óptimo pretexto para vir a Tomar e comer as últimas sardinhas do ano, numa daquelas tendas da feira que servem o saboroso peixinho. Ao que se chega com o passar dos anos…
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