Há uns bons anos (1986) fui a Edimburgo (Escócia) quando decorria o Festival de Verão, o mais importante do Reino Unido. O programa oficial era vastíssimo, tudo estava praticamente esgotado, lá consegui ver um espectáculo “in memoriam” a um tal Logan, contemporâneo e “rival” escocês do cómico inglês Charlie Chaplin e, depois, restava o “Fringe”. O “Fringe” era uma espécie de festival paralelo, onde as mais diversas companhias de teatro ou grupos de música ou artistas para todos os gostos e feitios se podiam exibir. A organização do Festival de Edimburgo fornecia duas enormes tendas de circo, uma para espectáculos que não tinham encontrado outro local na cidade e outra para bar/cantina onde todos se podiam encontrar/comer/conviver e editava o “jornal do Fringe” onde se divulgavam/encavalitavam dezenas e dezenas de actividades nos mais diversos locais e horas de manhã à noite. Os espectáculos não recebiam cachet da organização do Festival mas podiam arrecadar as receitas de bilheteira que conseguissem. Esta vastíssima oferta criava assim uma dificuldade aos milhares de visitantes em geral e a mim em particular: “o que é que eu hei-de escolher?” e outra a todos os promotores dos diferentes espectáculos: “o que é que se faz para sermos escolhidos?” E foi então que fui confrontado com um dos mais brilhantes exercícios de propaganda a que a minha acidentada vida artística (hi hi hi) já assistiu: várias pessoas, vestidas das mais variadas formas, em cima de pedestais improvisados, faziam de estátuas, imóveis, silenciosas, a inverter a lógica da azáfama do Festival e, por isso, a chamar mais a atenção, a obrigar-nos a parar e a observar bem as figuras que, pela imobilidade e pelo silêncio, mais atenção chamavam para o cartaz com que se acompanhavam e que fazia propaganda a uma peça do Peter Shaffer “Amadeus” (a mesma que deu origem ao filme do Milos Forman e que está actualmente em cena no Teatro Nacional D. Maria II). Claro que, com tão eficaz propaganda, quando fui para comprar bilhetes, a peça estava esgotada. Mas este inverter da lógica, ficar quieto e calado no meio do barulho e do movimento, ficou bem presente na minha memória e, várias vezes, utilizei o truque no teatro, algumas delas como propaganda. E eis que a iniciativa das Estátuas Vivas volta a despontar em Tomar, com uma dose de publicidade à séria, televisão, jornais, mupis, o boletim municipal por conta, que não é da responsabilidade da Cultura e sim da Educação, aquilo parece que mais ninguém faz nadinha pela Cultura em Tomar, só iniciativas do interesse da vereadora responsável é que são mesmo para divulgar, eu imagino a pipa de massa que aquilo tudo custou, pena tenho eu que não se divulguem os números, ora porra, aquilo sempre é dinheiro público, é só gastar em propaganda e de receitas de bilheteira népia, há muito dinheirinho por aí, mas voltando à iniciativa propriamente dita, a que é que as Estátuas Vivas propriamente ditas estavam a fazer propaganda? Aparentemente a nada. Aparentemente. E se aquilo, afinal, é tudo uma auto-propaganda à vereadora? Ai a magana… ps: O meu amigo Sebastião morreu. Conhecido por uns como arquitecto, por outros como arquitinto e por outros como arquitonto, era um bocadinho de tudo, foi para mim uma espécie de grilo falante. Particularmente quando estava bem bebido e eu tinha oportunidade de o deixar falar, quando lhe dava boleia depois de um espectáculo ou quando fazíamos viagens juntos, era de uma lucidez espantosa, ajudava-me a pensar as coisas, conseguia com a brutalidade da franqueza fazer-me perceber se o caminho que prosseguíamos era o mais correcto ou se devíamos mudar rotas.Com ele percebi porque é que os bobos era tão queridos na corte, mesmo se insultavam os poderosos. Vamos ter de nos desenrascar sem ele. Aqui fica o cartaz que ele fez para o “Hamlet”, na minha opinião um dos mais bonitos que o Fatias de Cá teve.
|