Já não fazia propaganda há uns tempos. Depois de o Fatias de Cá ter visto aprovado pelo programa “Culture” da Comunidade Europeia o nosso projecto de “A Tempestade” a partir de Shakespeare para duas línguas com duas companhia de teatro, uma de um teatro nacional polaco (Elblag) e outra de uma universidade inglesa (Lincoln), na primeira quinzena de Julho juntámo-nos os 50 participantes para ensaios e 6 espectáculos diferentes em: Tomar (Convento de Cristo), Constância (Parque Ambiental Santa Margarida), Sintra (Palácio de Monserrate), Coimbra (Mosteiro de Santa Clara) e Conímbriga (Ruínas). Em Agosto vamos repetir na Polónia e em Setembro em Inglaterra. Depois temos teatro aos sábados, “Inês de Portugal”, a partir de João Aguiar, em Coimbra no Mosteiro de Santa Clara, protocolo com a Direcção Regional de Cultura do Centro e aos domingos, “A Encomendação das Almas”, também a partir de João Aguiar (o nosso amigo morreu em Junho do ano passado), no Convento da Arrábida, protocolo com a Junta de Freguesia de Azeitão e a Fundação Oriente. Também vai haver um “Viriato”, também a partir de João Aguiar, no Castelo de Almourol, no domingo 18 de Setembro. Em Outubro recomeça, aos domingos, “O Nome da Rosa”, no Convento de Cristo em Tomar. E já chega de propaganda. Ah! As reservas são para o 960 303 991. Alem da teatrada, temos também andado a filmar o “Sonhar Portukalia”, que conta a história de um emigrante búlgaro que chega a Tomar e fica apaixonado por esta “cidade mágica”. Eu vou fazer o papel desse emigrante e até uso a t-shirt que ele usou quando chegou a Tomar, em 2004, velha e coçada, cor de burro-quando-foge, mal se veste fica-se logo com ar de desvalido (esta adjectivação vai ser útil para a graça da parte final deste ponto de vista). Para dar mais realce à chegada, fizemos coincidi-la com uma Festa dos Tabuleiros, em que o emigrante fica deslumbrado com uma das coisas mais emocionantes do mundo: a cor. Primeiro pensámos filmar o cortejo e o emigrante a partir da sede do Fatias de Cá, mas a partir do 2º andar ficava muito picado. E assim, fomos sacar uma janela à Região de Turismo, tinha bebidas e pestisquinhos, boas vistas e boa conversa, foi pouco bom foi. Eu visto a tal “t-shirt emigrante” e meto-me no passeio em frente, onde também há uma outra delegação do Turismo, mas não é dos mesmos, aquilo do Turismo anda tudo dividido em capelinhas, só que esta não tinha bebidas, era aguentar para ver o cortejo como o nosso povo, a seco. Entretanto, combinei com um jovem e afável policia, Rui Monteiro (a avaliar por este, a formação na Policia está no bom caminho) que ia saltar a corda do passeio para a rua como que para ver melhor e ele depois mandava-me voltar para trás da corda. Ele acede mas esclarece: “de qualquer maneira era essa a minha obrigação”. Como o cortejo dos tabuleiros era muito compacto, tinha de esperar pela passagem dos pendões e das bandas para “saltar”, o que significou três “takes”: no primeiro, mal meti a cabeça de fora, veio logo o policia empurrar-me; no segundo, saltei a corda e lá voltou ele a fazer o mesmo; no terceiro, ainda correu melhor: fui mais para o meio da rua, e aparece logo um mordomo, a dizer “o senhor não pode estar aqui” e o policia a empurrar-me para o passeio e os meus “colegas” figurantes a dizerem, com gestos, “já é a terceira vez que ele faz isto!”. Com isto tudo, assisti ao cortejo inteirinho, várias pessoas amigas a cumprimentarem-me, claro, e várias outras conhecidas, talvez devido à “pobreza” da minha t-shirt, olhavam-me com aquele ar com que se olha para os que estão na mó de baixo, num misto de desprezo e de “bem-feita!”, como dizia o meu amigo Manuel Martins, “quando estamos na mó de baixo, até os cães nos mijam nas calças”. E então, a meio disto tudo, passa um repórter da Rádio Hertz, a fazer o directo da Festa, vê-me e diz ao micro: “Ora aqui está o Carlos Carvalheiro a assistir ao desfile. Carlos, que impressões queres partilhar com os nossos ouvintes?” e eu “Eu agora não posso falar que estou a filmar” e ele “Pois a filmar com os olhos” e eu “Tens de sair daí para o policia me empurrar para o passeio” e ele “O Carlos está a ter problemas com a policia mas não há-de ser grave” e lá se afasta a entrevistar outro e a pensar que eu estava, no mínimo, com os copos. Isto de filmar é engraçado.