Sem contestar as razões que deram origem aos protestos do passado sábado, tenho que dizer com toda a clareza que geração à rasca foi a minha. Senão vejamos: nasci numa pequena aldeia sem água canalizada, sem electricidade, nem casas de banho. O acesso era um caminho de cabras, por onde também circulavam burros e carroças puxadas por muares. A escola na sede da freguesia distava mais de três quilómetros. O percurso era feito a pé com chuva ou com sol. Nos primeiros dois anos as aulas foram numa casa que tinha sido habitação, mas que já tinha ruído em parte, sendo protegida com fardos de palha. Escusado será dizer que também aí não existia casa de banho nem tão pouco água. Quando o tempo o permitia, antes de partir para a escola apascentava durante cerca de uma hora um rebanho de ovelhas e, quando regressava, ia novamente guardar o gado até à noite. Se queria estudar alguma coisa era tarde à luz de uma candeia de azeite ou na melhor das hipóteses de um candeeiro a petróleo. Continuar a estudar não me foi permitido porque tinha de trabalhar no campo. Foi por estas razões que eu com menos de 14 anos contra a vontade dos pais rumei a Lisboa com alguns queijos e chouriços que palmei lá em casa, dentro de um saco de serapilheira. Com alguns sacrifícios e sobretudo com trabalho nas obras, consegui vencer. Eu só falo de mim porque me dói, mas todos os meus colegas passaram pelo mesmo, excepto em relação ao trabalho antes e depois da escola. Na casa dos meus pais trabalhava-se muito mas havia comida. A minha geração era à rasca mas na dos meus pais era muito mais à rasca, segundo eles me informaram e que eu não ponho em dúvida.