Dizer-se que somos um Estado Social é afirmar uma utopia.
Subitamente, Portugal ficou em estado de excitação: analistas, comentaristas, e os políticos do costume, desataram a barafustar, usando léxicos que, se nos apanhassem desprevenidos, podiam induzir-nos o receio de que, a mais que provável, hecatombe de 2012, começaria por estas bandas. Ouve-se falar de assassínio, de atentado, de ameaças, de regresso do fascismo, enfim, prenúncios de grandes desgraças, coisas que, aliás, nos têm passado ao lado, desde as glórias e benesses de um certo Abril. Um projecto ou proposta, ou o que quer que seja, de alteração da Lei Fundamental, que alguns dizem caduca e ultrapassada, está na origem deste nervosismo histérico, cujos efeitos mais visíveis, alem de gerar uns quantos insultos políticos, foi tirar o povo do marasmo em que o calor estava a pô-lo, perturbar as férias, aos poucos que ainda as podem ter e gerar mais uma trapalhada a acrescer às muitas em que este País é pródigo. Parece ser propósito do dito projecto, entre outras malfeitorias, algo de tenebroso: nada menos que matar o estado social. Em boa verdade, para matar alguma coisa, é preciso que essa coisa esteja viva. Prenuncia-se, por isso, um crime agravado, porque a vítima, tudo leva a crer, se encontra já moribunda, portanto, com as resistências diminuídas. Dizer-se que somos um Estado Social é afirmar uma utopia. Defendê-lo tão ciosamente, como o fazem os seus criadores, é ofender muitos desditosos que têm o azar de viver nele. Este Estado Social, que alguém ameaça matar, é o mesmo que tem vindo a criar desempregados em catadupa: vai já nos seiscentos mil, que representam dois milhões de desamparados, contabilizando o núcleo familiar; é o mesmo que proclama a qualificação e competitividade, quando, sustenta um sistema de ensino irresponsável, produtor de “qualificados” desempregados e emigrantes; que apela à esperança, à luta, ao ânimo, e retira às populações o básico do seu bem-estar e da sua qualidade de vida e cuja segurança física nem consegue assegurar; que faz apelos à poupança, ao mesmo tempo que reduz salários, que, ainda assim, são abocanhados por uma fiscalidade impiedosa; que desvia recursos para subsidiar marginais e madraços. O Estado Social, supostamente na mira da anunciada conspiração, não deve sentir-se muito orgulhoso deste catálogo. Nem sei se merece que alguém o defenda. Vem de um histórico de muitas incompetências, de gastos desmesuradamente obscenos, de um novo-riquismo inconsciente que delapida recursos que não tem, de uma justiça social utópica. Vem da incapacidade de estimular o tecido produtivo e de uma política suicida que promove o abandono da terra. Vem do encerramento de factores de fixação das pessoas ao interior, escolas, maternidades e centros de saúde. O que resta do Estado Social, subsiste à conta de quê? Da tradicional albarda. A albarda dos últimos anos da monarquia, a do Bordallo, é a mesma da República, a mesma do Antigo Regime e a mesma da Via para o socialismo. Presentemente, é a crise que se senta nela. Em Portugal há sempre uma crise providencial; se não nasce cá, importa-se. E não apenas para servir de bode expiatório; é uma necessidade, um estado de alma. Nisto somos muito tradicionalistas. Não muda a albarda nem o burro que a suporta. mstraquina@gmail.com
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