O ensino, em Portugal, é desde há muito, um imenso campo de surpresas, um vasto laboratório de experiências. E, não são aleatórias: muda o ministro, muda a política de ensino, muda o sistema pedagógico. Sempre com boas proclamações de progresso e modernidade. Ora, tendo em conta os resultados dessas experiências educativas, não me parece que os sucessivos progenitores tenham muitas razões para se orgulharem: entre nós o ensino vai de mal a pior. E este não é apenas um juízo subjectivo. É reconhecido por académicos, estudiosos, pedagogos, professores, cuja envergadura intelectual e experiência no assunto é insuspeita e cuja independência e bom senso não oferecem dúvidas. Se isto não for bastante, atendamo-nos à realidade. Quando parecia que o afã revolucionário para as coisas do ensino já nos tinha impressionado o suficiente, quando pensávamos já ter visto tudo, acerca deste tema, nomeadamente, faltas não penalizadoras, notas irrelevantes, passagens de ano sem provas, enfim, toda uma lista de razões para desmotivarem os alunos de estudar, eis que o absurdo se refina. A medida educativa que parece sair de uma prolongada incubação, e isso não a beneficia, pode ter todas as justificações; seja estímulo, incentivo ou desafio, é duvidoso que alguma prevaleça. A transição de um aluno retido, chegado aos 15 anos sem ter passado do oitavo ano de escolaridade, para o décimo, sem cursar o nono, mediante uma prova cujo grau de dificuldade facilmente se adivinha, é, dizem os responsáveis, um estímulo à força de vontade, não manifestada antes. Resta saber se isso sucedeu por culpa própria ou de terceiros. Esta ideia brilhante, tem consequências. Tem consequências para o protagonista que, naturalmente, porque já o demonstrou, continua incapaz; tem consequências para os alunos diligentes e responsáveis que são tentados a pensar que o esforço não compensa; tem consequências para os pais que são enganados e muitos nem dão por isso; tem consequências para os professores que se frustram e se resignam e tem consequências para os progenitores da ideia, que correm o risco de cair no ridículo. E, se a medida se massificar, torna-se inqualificável. Parece-me, contudo que as piores consequências sofrem-nas os alunos que cursam o nono ano de escolaridade. Estes hão-de olhar para aqueles que lhes passam por cima e aterram no décimo, e interrogar-se sobre os desígnios de um sistema educativo que, privilegia as estatísticas em detrimento do seu esforço. Estranho é o facto de as cobaias, isto é, estas vítimas, tão prontas para reclamar superficialidades, parecerem impassíveis face aquilo que, verdadeiramente, os afecta.
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