São mais de mil os esqueletos que já foram detectados na zona entre a igreja de Santa Maria dos Olivais, o lar N.ª Sr.ª da Graça e o Centro de Emprego de Tomar. É já considerada pelos arqueólogos como a maior necrópole da Península Ibérica escavada até ao momento.
 |
|
 |
No terreno continuam cerca de 60 pessoas nos trabalhos arqueológicos entre arqueólogos, antropólogos e indiferenciados. E as descobertas sucedem-se a um ritmo vertiginoso. A semana passada começaram os trabalhos de escavação mais próximo da igreja de Santa Maria dos Olivais, entre a igreja e a torre sineira, onde foram descobertos túmulos antropomórficos, estelas funerárias e algumas moedas. A importância patrimonial da descoberta fez com que o historiador Ernesto Jana fosse à reunião pública da Câmara de Tomar na segunda-feira, dia 28, alertar o Executivo para a necessidade de preservação daquele conjunto de túmulos. Até agora todas as ossadas e pedras têm sido retiradas e encaminhadas para Évora. No final da reunião de Câmara, já ao fim da tarde, cinco dos sete elementos do Executivo Camarário (faltaram Rosário Simões e Ivo Santos) deslocaram-se ao local das escavações acompanhados pelos técnicos da TomarPolis e dos arqueólogos para verificar a importância dos achados e a pertinência da proposta de Ernesto Jana. “Face ao interesse histórico e arqueológico dos túmulos que foram descobertos entre a Igreja de Stª Maria dos Olivais e a Torre Sineira”, a Câmara decidiu por unanimidade “que não deverá ser retirado do local nenhum destes túmulos e que seja feito um estudo com vista a obter proposta para que os mesmos possam ser vistos em condições técnicas adequadas, ou seja para a musealização “in situ”.” No local das escavações junto à igreja onde foram descobertos 45 esqueletos, o arqueólogo responsável, Sérgio Pereira, apresenta aos autarcas o seu lamento caso tenham de demolir os túmulos. “Tenho pena de ver isto assim alagado”, refere, defendendo a criação de um pólo arqueológico em Tomar, uma vez que há potencial para isso. O arqueólogo lamenta também que tenham de trabalhar “a contra-relógio”, apesar de garantir que “o trabalho está a ser bem feito”. Para já estão a escavar nos locais onde a obra da estrada de acesso à nova ponte e dos arranjos exteriores tem maior impacte. Do que descobriram até agora, os túmulos situados mais perto da igreja parecem pertencer a indivíduos mais importantes na época uma vez que se trata de enterramentos estruturados. Alguns dos corpos foram sepultados em caixões como comprovam os pregos em fila encontrados no local. Outros tinham moedas do séc. XV nas mãos, um achado que define a datação dos enterramentos.
Esqueletos à mostra ou não?
O historiador Ernesto Jana, cuja tese de mestrado versou a igreja de Santa Maria dos Olivais, acredita que os túmulos encontrados entre a escadaria e a torre sineira sejam dos mais antigos e por isso defende a sua preservação no próprio local. Uma “musealização in situ” que serviria para mostrar aos visitantes o que era a necrópole e como eram feitos os enterramentos. Menos pacífica é a questão de manter ou não os esqueletos à mostra. Se para os antropólogos e investigadores não há qualquer problema em manter as ossadas à vista de todos tal e qual como estavam, para o público em geral as sensibilidades variam. O presidente da Câmara não hesitou em manifestar-se contra a possibilidade de se colocar em exposição os esqueletos. Salete da Ponte é um nome incontornável nas escavações arqueológicas em Tomar desde o final dos anos 70. Responsável por escavações nos anos 80 junto à igreja e no Fórum, a arqueóloga, professora no Instituto Politécnico, tem-se mantido afastada das mais recentes actividades arqueológicas em Tomar. Desiludida com a Câmara de Tomar, Salete diz-se angustiada com o arrastar de situações que têm a ver com o património arqueológico de Tomar. Dá o exemplo do Fórum romano cujo abandono se mantém há cerca de duas décadas. “Isto arrasta-se e só volta a fazer parte da agenda quando as eleições se aproximam”, lamenta a arqueóloga, que parece ter desistido de “pregar no deserto”. “Palavras leva-as o vento”, conclui. Salete da Ponte afirma que evita de passar pela zona das escavações porque se sente angustiada. Defende que “a conservação implica a manutenção e também a divulgação”, realçando a importância da necrópole que existe numa vasta área entre Santa Maria dos Olivais e Santa Iria. A arqueóloga também concorda com a criação de uma zona ajardinada que incluísse um núcleo representativo dos achados arqueológicos.
|